Super-protejo a verdade, a isolo de qualquer contato para que nada de mal lhe aconteça. Dou-lhe cama, roupas, ofereço-lhe o que de mais moderno meu dinheiro compra. Só não a alimento. Mas ela é forte, não precisa de comida, sempre foi baixinha, de pouco peso. Psicologicamente, tímida e bem discreta, porém, determinada e persistente.
Mas apesar de todo o meu cuidado, a verdade cansou de ser só. Cansou de puxar conversa comigo e de eu não querer ser sua ouvinte. Ficou revoltada, com muita raiva, irreconhecível.
Eu bato na verdade. A verdade revida e bate em mim. Parece que só eu que senti. Sempre desconfiei que ela era insensível.
Nunca me dei conta de que enquanto a protegia, ela adquiriu força e eu que fiquei indefesa. Ela então fugiu. Fugiu, mas não sumiu. Eu disse que ela era persistente. Ela ainda queria que eu a escutasse. Será que ela queria ser minha amiga? Depois de me bater? Eu que a protegi, fui socada por ela. Não sei se me decepcionei com ela ou comigo. Acho que com as duas. Mas eu comecei a errar. Eu sou a mentira e na verdade a protegi... Aliás, me protegi com medo. Tinha medo de que a verdade virasse um monstro.
Eu não percebi que quando não a alimentava, alimentava o monstro. Agora é tarde. Por minha culpa, a única coisa a fazer é batizá-lo. Ele tem cara de "Decepção". Mas que idéia hein. Nome feio... Podem chamá-lo de "Deedee".
Por Dulce Guimarães
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